manuscritar
Quando menor, procurava agradar a todos os meus tios. Para um primo meu ficar sentado e quieto, ele pedia algum doce ou dinheiro. Já eu, sentava e me comportava, e nunca quis nada por isso. Se algum tio precisasse de um favor deles, tinha que ter algo em troca. Já eu, me levantava, fazia o que tinha de ser feito e voltava para o meu lugar, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se um sorriso valesse mais do que qualquer coisa. Apesar disso, todos eles gostavam mais dos meus primos, não importasse o que eu fizesse. Eles queriam valores materiais, eu apenas queria carinho. Eles queriam algum agrado, eu queria apenas agradar. Procurei uma dose de orgulho e ganhei litros de desprezo. Fui passado pra trás, esquecido, deixado de lado. Ninguém perguntou se eu precisava de algo, mas eles souberam. Cresci sentindo a dor da indiferença. Não foi fácil, mas sempre estive sorrindo, ainda que por dentro fosse tristeza. Não tenho raiva e nem desejo o mau. Longe disso, que sejam todos felizes. Tenho mágoas, muitas, na verdade. Mas repito para mim mesmo, todas às vezes que lembro disso, com um sorriso do coração: Eu sou melhor do que isso.
Allax Garcia.  (via manuscritar)